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Brasil não tem nenhum município com condições adequadas para mulheres, aponta índice de gênero

há 6 horas
3 min de leitura

Levantamento da consultoria Tewá reúne dados de 5.570 cidades e maior nota é 67 de 100; Participação política e saúde têm os piores resultados

Em 726 municípios brasileiros, nenhuma mulher foi eleita vereadora nas últimas eleições de 2024. Em 614, nenhuma gestante fez seis ou mais consultas de pré-natal. E em quase sete de cada dez cidades, não existe sequer um Conselho Municipal dos Direitos da Mulher.

Os números fazem parte de um retrato do Índice Municipal de Gênero (IMG), realizado pela consultoria Tewá, após analisar os 5.570 municípios do país e concluir que nenhum deles oferece condições adequadas de vidas para mulheres.

A cidade mais bem colocada, Águas de São Pedro (SP), soma 67,06 pontos em uma escala de 0 a 100. A pior, Uiramutã (RR), tem 28,14. Nenhuma ultrapassa os 70 pontos, o corte que, em analogia ao IDH, marcaria um desempenho alto.

A média nacional é de 50,60, e mais de 90% dos municípios ficam entre 40 e 60 pontos, o que mostra que as desigualdades se repetem em praticamente todo o território.

O resultado contrasta com o momento de otimismo do desenvolvimento humano. Em 2024, o Brasil entrou pela primeira vez na faixa de "muito alto desenvolvimento humano", com IDHM de 0,805, ou 80,5 pontos.

Entre as mulheres, o índice foi de 79,8. Já o novo índice de gênero, que tem forte correlação estatística com o IDHM, marca 50,60: quase 30 pontos a menos.

Para os autores, os ganhos em renda, educação e longevidade não chegam na mesma proporção à vida das mulheres, nem à representação política e ao acesso a oportunidades.

As capitais têm média superior mas na maioria dos estados essas cidades não lideram o ranking. Em São Paulo, 34 cidades superam a capital, e no Rio Grande do Sul, Porto Alegre é superada por 54.

Pernambuco se destaca: cerca de 79% dos seus municípios estão acima da média nacional, à frente do Paraná (71,68%). Já Roraima é o único estado em que nenhuma alcança a média.

Para Luciana Sonck, CEO da Tewá, o índice expõe um problema de base: "Existe um enorme vazio de dados de gênero no Brasil, o que faz com que as mulheres sigam invisíveis e deixem de ser prioridade nas políticas públicas", destaca.


Política e saúde: os piores resultados

O índice é formado por sete dimensões, com 17 indicadores. A participação política tem a pior média nacional (29,59 pontos), seguida pela saúde (30,42). Em nove de cada dez municípios, uma das duas aparece entre as áreas com menor pontuação.


Em 87% das cidades, ao menos uma dimensão fica abaixo de 30 pontos.


Na saúde, em média, só 24,74% das gestantes fizeram seis ou mais consultas de pré-natal, e a cobertura do exame preventivo de Papanicolau é de 36,14%, variando de 2% a 93% entre as cidades.

No Norte, a média da dimensão saúde é de 20,51 pontos, a menor do país.

No trabalho e na renda, a nota média é 40,41, e a taxa de ocupação feminina é de 39,48%. Cidades com maior cobertura de creche têm taxas mais altas.

Já a segurança teve a melhor média do índice (91,88 pontos), mas os atores alertam que isso pode ser um sinal de falta de dados, e não de proteção.

Segundo o estudo, 1.480 municípios (27%) não registraram nenhum feminicídio em cinco anos, 591 não registraram estupros e 84 não registraram violência doméstica.


Em 2025, o país teve 1.571 feminicídios, mais de 84 mil estupros e 286 mil registros de lesão corporal por violência doméstica.

"Quando o município apresenta zero feminicídios ou zero estupros registrados, isso é um ponto de atenção", afirma a CEO da consultoria.

Mulheres negras e indígenas são as mais afetadas

Dos 106 municípios com menos de 40 pontos, 64,15% estão no Norte. Em média, essas cidades têm 70,32% de população negra e 11,05% de população indígena, dez vezes a média nacional.


Nas periferias metropolitanas, o retrato é parecido: em Japeri (RJ), 49,93% das mulheres gastam mais de uma hora no trajeto casa-trabalho. Em Francisco Morato (SP), são 47,09%, e em Águas Lindas de Goiás, 45,37%.


Fonte: Exame

 
 
 

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