Mirian Cruz: “Desistir nunca fez parte da minha trajetória”
- 21 de mai.
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Minha história no transporte começou há 13 anos. Foram 11 anos atuando no ônibus e, há dois anos e meio, sigo na operação com veículo de cargas articulado.
Quando olho para trás, vejo o quanto essa caminhada exigiu coragem, paciência e muita persistência. O começo não foi fácil.
Entrar no setor de transporte sendo mulher traz desafios e a falta de experiência tornava tudo ainda mais difícil. Em muitos momentos, precisei provar que era capaz de fazer o mesmo trabalho que profissionais mais experientes já realizavam há anos.
Foi cansativo enfrentar o preconceito e a desconfiança, principalmente em um ambiente ainda muito masculino. Mas eu sempre acreditei que nenhuma conquista vem sem luta. E desistir nunca foi uma opção.
Quando você realmente ama o que faz, existe algo dentro de você que continua insistindo, mesmo diante das dificuldades. Meus olhos brilhavam pela profissão, e isso sempre falou mais alto.
Ao longo da minha trajetória, fui entendendo que cada etapa traz um aprendizado. O transporte me ensinou sobre responsabilidade, disciplina, superação e, principalmente, sobre acreditar em mim mesma.
Hoje, uma das coisas que mais me realiza é o reconhecimento que recebo das pessoas. Ouvir elogios, palavras de incentivo e perceber a admiração quando elas enxergam uma mulher conduzindo um veículo articulado é algo que me emociona muito.
Existe um orgulho enorme em ocupar esse espaço.
Mas também sei que ainda enfrentamos muitas barreiras. O preconceito continua presente no dia a dia do setor, seja vindo de empregadores, clientes ou até colegas de trabalho. Muitas vezes, nós mulheres precisamos trabalhar dobrado para sermos respeitadas e ouvidas.
Mesmo assim, acredito que mostramos diariamente nossa capacidade. Com dedicação e responsabilidade, provamos que podemos exercer qualquer função com competência e excelência.

Conciliar a vida pessoal com a profissão também é um desafio. O transporte exige ausência, um tempo longe de casa e distante das pessoas que amamos. Por isso, aprendi a valorizar cada momento, encontro e instante vivido ao lado da família e dos amigos.
E mesmo depois de tantos anos na estrada, continuo sonhando. Quero me especializar ainda mais e, principalmente, poder compartilhar minhas experiências com outras pessoas que desejam seguir essa profissão. Ajudar, ensinar e incentivar outras mulheres é algo que tem muito valor para mim.

Quando penso sobre a equidade de gênero no mercado de trabalho, acredito que ainda temos um longo caminho pela frente. Enquanto existirem diferenças salariais, pouca presença feminina em cargos de liderança e preconceitos estruturais, ainda teremos muitos desafios para superar.
Mas também acredito na força das mulheres. Precisamos confiar mais em nós mesmas, ocupar espaços e acreditar que somos capazes. Muitas vezes, o medo e a insegurança acabam nos limitando mais do que deveriam.
As conquistas femininas ao longo da história foram fundamentais para que hoje pudéssemos estar em espaços que antes pareciam impossíveis. E ver cada vez mais mulheres chegando ao transporte rodoviário mostra que estamos avançando, mesmo que aos poucos.
Minha trajetória é prova de que perseverança faz diferença. As pedras sempre vão existir no caminho. Algumas serão colocadas por outras pessoas, outras simplesmente aparecerão. Mas aprender a seguir em frente, desviar dos obstáculos e continuar crescendo é o que nos fortalece.
E é isso que eu quero deixar para outras mulheres: não desistam dos seus sonhos. A caminhada pode ser difícil, mas a conquista faz tudo valer a pena.
Também sou muito grata às empresas e iniciativas que fizeram parte da minha trajetória, como Ipiranga, White Martins, Fabet, a empresa Spajari e o movimento Vez & Voz, que ajudam a abrir portas e fortalecer a presença feminina no transporte rodoviário de cargas.
Mirian Cruz é motorista carreteira na Spajari.
