Vez & Voz participa do “Mulheres no Transporte” e reforça a importância de ambientes seguros e inclusivos para ampliar a presença feminina no setor
- 15 de mai.
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Brasília recebeu, nesta quarta-feira (13), a 2ª edição do evento “Mulheres no Transporte – Trajetórias que Inspiram”, iniciativa do ITL – Instituto de Transporte e Logística, que reuniu lideranças femininas, executivas, representantes de entidades e profissionais de diferentes modais para debater temas como inclusão, ambientes seguros, inovação, cultura organizacional e representatividade feminina no setor.

O Vez e Voz foi um dos apoiadores do evento e marcou presença por meio de sua idealizadora, Ana Jarrouge, e da coordenação do movimento, Camila Florencio e Gislaine Zorzin.
Durante a abertura, Vander Costa, presidente da CNT – Confederação Nacional do Transporte, destacou o crescimento da presença feminina em posições estratégicas dentro do Sistema Transporte. Atualmente, mais de 50% das lideranças do Sistema são ocupadas por mulheres, resultado que demonstra uma evolução importante na abertura de oportunidades e no fortalecimento da participação feminina no setor.
“Nós não criamos grandes projetos, nós só não criamos barreiras que impeçam que as mulheres avancem profissionalmente”, esclareceu Costa.
Nicole Goulart, diretora executiva do SEST SENAT, reforçou que o debate sobre mulheres no transporte vai além da presença feminina nas empresas. Para ela, a pauta envolve o protagonismo das mulheres na sociedade e isso começa com a proteção de crianças e adolescentes e, na sequência, formação que garante oportunidade de trabalho.
Fernanda Rezende,diretora executiva da CNT, falou sobre os desafios enfrentados por mulheres que atuam em ambientes historicamente masculinos e ressaltou a importância da resiliência, preparo e determinação para ampliar a presença feminina em posições de liderança.
Eliana Costa, diretora adjunta do ITL e idealizadora do evento, ressaltou que o tema desta edição, “Inovar para avançar, respeitar para liderar”, reflete a transformação que a presença feminina vem promovendo em todos os modais do transporte, tanto de cargas quanto de passageiros, pois as mulheres são naturalmente mais colaborativas e empáticas. “Acreditar na evolução do setor é também acreditar e investir nas relações humanas”.

A transformação cultural dentro das organizações foi um dos temas centrais do evento. Ana Jarrouge, presidente executiva do SETCESP e idealizadora do Movimento Vez e Voz, conduziu o painel sobre ambientes seguros para mulheres no transporte e destacou que a inclusão precisa sair do discurso e fazer parte das práticas diárias das empresas.
“Precisamos dizer o que não é aceitável, mas também o que é aceitável pois é preciso levar em consideração a cultura da empresa e a região em que ela atua que tem características próprias. O óbvio sempre precisa ser dito”, alertou Jarrouge ao abrir o painel após comentar os números de assédio no Brasil.
Segundo dados de 2025 apurados pela Justiça do Trabalho, aproximadamente 1 em cada 3 brasileiros já sofreu algum tipo de assédio, porém 38% das vítimas não denunciaram e os principais motivos foram medo de retaliação, insegurança pós-denúncia, falta de confiança nos canais internos. No ano passado, foram abertos 142,8 mil novos processos por assédio moral (aumento de 22,3% em relação a 2024) e 12,8 mil novos processos por assédio sexual (aumento de aproximadamente 40% em relação a 2024). Em 2025, 7 em cada 10 processos, as vítimas são mulheres.

Ana Patrizia Lira, diretora presidente da ANPTrilhos, reforçou a importância de preparar equipes para acolher mulheres vítimas de assédio e fortalecer canais de denúncia para que as usuárias continuem utilizando o transporte público.
Luana Fleck, diretora do Grupo Ouro e Prata, reforçou que identificação de passageiros no transporte rodoviário interestadual e da atuação integrada com a Polícia Rodoviária Federal garante a atuação imediata em situações de assédio e violência contra a mulher durante o trajeto.
Já Cintia Rocha, diretora de recursos humanos na DHL Supply Chain, ressaltou que políticas internas e estruturas de compliance só geram confiança quando as empresas tratam denúncias com seriedade, responsabilidade e consequências coerentes com a gravidade da situação, independentemente do cargo envolvido.
O debate também trouxe reflexões sobre representatividade feminina em profissões onde a presença das mulheres ainda é reduzida. Marcelo Bernardes, superintendente de governança e meio ambiente da ANAC, chamou atenção para o baixo número de mulheres na aviação.
“Há alguns anos, somente 3% de mulheres eram pilotos, porém com a formação intencional e parceria com o SEST SENAT, estamos conseguindo aumentar este número gradativamente, garantindo o crescimento da profissão de forma sustentável ao atrair as mulheres das novas gerações que, antigamente, não se viam nesta posição”.

Nos últimos anos, diversos mecanismos legais foram criados para combater o assédio e a violência, principalmente contra as mulheres, dentro e fora do ambiente corporativo. Entre eles, a Lei Emprega + Mulheres, que tornou obrigatório programas de prevenção e combate ao assédio em empresas com mais de 100 funcionários; Lei do Feminicídio, que incluiu o crime no Código Penal como circunstância qualificadora do homicídio; Lei do Stalking e Lei de Violência Psicológica contra a Mulher que criminalizam a perseguição e agressões emocionais; e a Resolução 800 da ANAC, que pune imediatamente situações de assédio e impede que passageiros indisciplinados utilizem o transporte aéreo por até 12 meses, além de aplicação de multa.
“Nosso grande desafio é mudar os hábitos de um setor que só há pouco tempo está aprendendo a ter mulheres além da recepção da empresa”, comentou Andrea Simões, diretora de gente, cultura e transformação digital da Log-In Logística Integrada.

Ana Jarrouge encerrou o painel reforçando que “mais do que intenção, precisamos de ações diárias que reflitam o que está no site das empresas e, para isso, o apoio e envolvimento do C-level é fundamental”.
O evento contou ainda com palestras sobre empoderamento feminino com Rachel Maia; a importância dos hábitos para uma vida mais saudável com a neurocientista Fernanda Bornhausen; e painéis sobre inovação, mulheres na operação e com importantes empresárias que compartilharam suas trajetórias com o público presente.
Mais do que um espaço de debate, o evento Mulheres no Transporte – Trajetórias que Inspiram reforçou que ampliar a participação feminina no setor é uma agenda estratégica para o futuro do transporte no Brasil. A construção de ambientes mais seguros, inclusivos e diversos fortalece a inovação, impulsiona o desenvolvimento do setor e contribui para um transporte mais cuidadoso, inovador e preparado para os desafios das próximas gerações.



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