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Eliana Cristina: “A mulher que sou hoje não nasceu pronta. Ela foi sendo construída ao longo do caminho. ”

há 6 horas
6 min de leitura

Acervo pessoal: Eliana Cristina
Acervo pessoal: Eliana Cristina

Trabalhava em uma distribuidora de medicamentos e foi ali que tive meus primeiros contatos com o transporte, principalmente durante o recebimento das mercadorias, quando acompanhava a conferência dos pedidos no momento da entrega.

Quando essa empresa encerrou suas atividades, precisei buscar uma nova oportunidade profissional. Foi então que, em 2008, surgiu a oportunidade de ingressar na Ativa. A partir daquele momento, o transporte passou a fazer parte da minha trajetória.

Mas 2008 não marcou apenas o início da minha história no setor. Foi também um ano de grandes mudanças na minha vida pessoal.

Naquele mesmo período em que comecei na Ativa, passei por uma separação, depois de oito anos de casamento. Até então, nunca havia assumido sozinha todas as responsabilidades de uma vida adulta.

Decidi que não voltaria a morar com meus pais. Queria construir minha independência e assumir a responsabilidade pela vida que eu desejava ter. Eu não sabia exatamente onde aquelas decisões me levariam, mas sabia que precisava seguir.

Olhando para trás, percebo que aquele período foi o início de muitas coisas que vieram depois: minha independência, meu crescimento profissional, a compra da minha casa, minha formação e tantas outras conquistas.

Na época, eu estava apenas tentando reorganizar minha vida. Hoje percebo que estava começando a construir uma nova trajetória.

Acervo pessoal: Eliana Cristina
Acervo pessoal: Eliana Cristina

Venho de uma família simples, em que ter o básico já era considerado suficiente. Sempre tive vontade de melhorar minha condição de vida e buscar novas oportunidades, mas não cresci recebendo muitos incentivos. Meus pais tinham uma visão de vida diferente daquela que eu começava a construir para mim.

Minha família acompanhou minha trajetória de forma distante, enquanto eu aprendia a tomar minhas próprias decisões, assumir responsabilidades e buscar a vida que queria construir. De alguma forma, essa experiência também contribuiu para desenvolver em mim a autonomia e a determinação que carrego até hoje.

Em 2018, vivi um dos maiores desafios da minha carreira: fui promovida da área administrativa para a supervisão operacional.

Acervo pessoal: Eliana Cristina
Acervo pessoal: Eliana Cristina

Era uma posição de liderança em um setor ainda predominantemente masculino. Algumas pessoas da equipe tinham idade para ser meu pai e muito mais experiência prática em determinadas atividades da operação.

Também ainda não dominava todos os processos. Precisava aprender muito enquanto já ocupava uma posição de liderança. No início, a aceitação foi difícil. Eu precisava conquistar meu espaço e, principalmente, a confiança e o respeito da equipe.

Foi um período de muito aprendizado. Entendi que ocupar uma posição de liderança não significava saber tudo. Era preciso ter humildade para aprender com quem conhecia a operação e, ao mesmo tempo, desenvolver segurança para tomar decisões e assumir as responsabilidades que o cargo exigia.

Com o tempo, fui construindo essa relação e conquistando meu espaço por meio do trabalho, do conhecimento e da forma como conduzia a equipe. Essa experiência também me ensinou que credibilidade não se constrói de um dia para o outro. Ela é resultado daquilo que fazemos todos os dias.

Em determinada ocasião, um novo gestor ingressou na empresa e, ao me conhecer, disse que eu “não atendia ao perfil da empresa”. Naquele momento, já tinha cerca de 14 anos de empresa e uma trajetória construída dentro da operação.

Pela forma como a situação aconteceu, entendi que havia um questionamento sobre a minha capacidade de ocupar uma posição de supervisão operacional, em um ambiente ainda muito associado à figura masculina.

Aquilo me marcou. Mas também reforçou algo que eu já vinha aprendendo ao longo da minha trajetória:

Eu não precisava corresponder à imagem que alguém tinha de quem deveria ocupar aquele cargo. Precisava entregar resultado.

O tempo passou. Esse profissional já não está mais na empresa, talvez ele também não tenha atendido ao perfil. Eu continuo aqui. Assumi novas responsabilidades e sigo crescendo profissionalmente. Essa experiência reforçou uma convicção que carrego comigo:

Competência não se mede por gênero. Mede-se por preparo, responsabilidade, entrega e resultado.

Amo o que faço, mas existem momentos em que a rotina se torna exaustiva.

Estar em uma posição de liderança exige que, diariamente, eu coloque minha capacidade à prova. A equipe que já trabalha comigo conhece minha trajetória, mas o novo faz parte da operação o tempo todo: chega um novo colaborador, um novo cliente, uma nova demanda, um novo desafio.

Esse movimento é diário.

Acervo pessoal: Eliana Cristina
Acervo pessoal: Eliana Cristina

Já pensei em desistir algumas vezes. E aprendi que está tudo bem, porque não estaremos 100% todos os dias.

Quando penso em desistir, procuro revisitar minha trajetória. Olho para tudo o que já construí e para o quanto caminhei até chegar aqui. Isso me ajuda a entender que eu não preciso desistir. Preciso apenas descansar.

Tenho muita gratidão pela vida e pelas oportunidades que apareceram ao longo da minha trajetória. Nem sempre consegui aproveitá-las. Algumas vezes faltou confiança em mim mesma. Em outras, faltaram conhecimento ou maturidade para entender que eu poderia ocupar determinados espaços. Mas consegui agarrar muitas oportunidades e construir meu próprio caminho.

Quando olho para o lugar de onde vim, sei que as estatísticas nem sempre apontavam para uma trajetória como a que consegui construir. Por isso, o que mais me orgulha na mulher que me tornei é a força, a garra e, principalmente, a capacidade que precisei desenvolver de acreditar no meu potencial, mesmo quando isso não era tão óbvio para mim.

Tenho orgulho de ter construído minha autonomia, de continuar aprendendo e de entender que ainda tenho muito a conquistar.

“A mulher que sou hoje não nasceu pronta. Ela foi sendo construída ao longo do caminho.”

Algumas funções foram associadas quase exclusivamente aos homens, principalmente nas áreas operacionais.

Mas mulheres têm competência para liderar equipes, tomar decisões difíceis, entender uma operação, administrar conflitos, buscar resultados e ocupar qualquer espaço dentro do setor.

Também não precisamos reproduzir um modelo masculino de liderança para sermos respeitadas. Podemos desenvolver nossa própria forma de liderar, utilizando nossas características, nosso conhecimento e nossa experiência.

O que precisamos são de oportunidades para mostrar nossa capacidade e de ambientes em que nosso trabalho seja avaliado pelos mesmos critérios utilizados para qualquer profissional: preparo, responsabilidade, entrega e resultado.

Hoje, um dos reconhecimentos profissionais que mais valorizo acontece quando um gerente ou diretor me procura para ouvir minha opinião antes de uma tomada de decisão. Para mim, isso demonstra confiança no conhecimento e na experiência que construí ao longo da minha trajetória. É nesses momentos que tenho a certeza de que estou exatamente onde deveria estar: contribuindo, sendo ouvida e entregando o meu melhor.

Depois de tantos anos vivendo a operação, tenho um novo sonho: atuar como consultora na área de logística.

Quero transformar toda essa experiência em conhecimento que possa contribuir também com outras empresas e profissionais.

Ainda tenho muito a aprender e a construir, mas vejo a consultoria como um próximo passo da minha trajetória. E, para quem está começando agora no setor, deixo um conselho: não espere se sentir totalmente pronta para aproveitar uma oportunidade.

Muitas vezes acreditamos que precisamos dominar tudo antes de dar o próximo passo. Nem sempre é assim. Grande parte do conhecimento é construída no caminho, quando aceitamos o desafio e nos permitimos aprender.

Conheça a operação. Faça perguntas, quantas forem necessárias. Aprenda com as pessoas que têm experiência, independentemente do cargo que ocupam. Na logística, ninguém constrói conhecimento sozinho.

Acervo pessoal: Eliana Cristina
Acervo pessoal: Eliana Cristina

Não permita que a insegurança faça você recuar diante de uma oportunidade. Nem todos os dias você estará confiante, nem sempre terá todas as respostas, mas isso não significa que não tenha capacidade.

Construa sua credibilidade pelo trabalho. Não gaste energia tentando provar o tempo todo que você merece estar ali. Aprenda, entregue, assuma responsabilidades e deixe que a consistência da sua trajetória fale por você.

Ao longo da minha trajetória, aprendi que nem sempre teremos coragem para enfrentar todos os desafios, mas cada vez que nos permitimos tentar, descobrimos um pouco mais da nossa força.

Hoje, olho para tudo o que construí e sou grata por ter continuado, mesmo nos momentos de dúvida. Acredito que crescer é isso: enfrentar os medos, confiar na própria capacidade e seguir em frente.

Talvez você ainda não enxergue toda a sua força. Mas continue. Um dia, vai olhar para trás e agradecer por não ter desistido.

Eliana Cristina da Silva é Supervisora Operacional Sr. da Ativa Distribuição e Logística Ltda.

 
 
 

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