Marina Fior: “Competência técnica não tem gênero”

Entrei no segmento de transporte aos 22 anos e, desde então, construí uma trajetória de 26 anos de aprendizado contínuo. Minha porta de entrada foi a área de Recursos Humanos, mas minha história no setor foi muito além deste departamento. Tive a oportunidade de conhecer de perto o atendimento, a operação, a coleta, o monitoramento, a distribuição e também as rotinas financeiras. Circular por diferentes áreas me permitiu conhecer o transporte na prática e compreender melhor as pessoas que fazem o setor acontecer. Essa experiência me trouxe uma visão ampla da empresa e me ajudou a construir a profissional que sou hoje.
Ao olhar para minha trajetória, vejo dois grandes marcos. O primeiro é a satisfação de ter participado da formação e do crescimento de profissionais que, ao longo dos anos, evoluíram em suas carreiras. Acompanhar alguém que um dia chegou buscando uma oportunidade e depois vê-lo conquistar novos espaços é uma das coisas que mais me realizam profissionalmente.

O segundo foi conquistar meu lugar no staff estratégico da empresa. Ser ouvida e poder contribuir com as decisões do negócio, a partir das minhas competências, representou uma grande conquista. Não apenas para a minha trajetória profissional, mas também por reforçar a importância de um RH que conhece o negócio, entende as pessoas e participa das decisões de forma estratégica.

Minha forma de enxergar liderança também foi construída a partir das referências que encontrei pelo caminho. Na minha vida pessoal, minha mãe sempre foi uma grande inspiração. Ela não teve acesso à alfabetização formal, mas me deixou um dos maiores legados que poderia receber: ética, respeito e sede de aprendizado.
No início da minha carreira no transporte, também conheci uma profissional que marcou profundamente minha trajetória. Era uma gerente de filial muito jovem, com uma filha de apenas dois meses, que assumiu a liderança em uma época em que quase não se viam mulheres ocupando posições como aquela. Eu observava sua inteligência, sua capacidade de escuta, a forma como motivava a equipe e, principalmente, sua capacidade de entregar resultados que iam muito além das metas. Naquele momento, percebi o tipo de líder que gostaria de me tornar.

Depois que retornei da licença-maternidade, enfrentei o receio do mercado em relação às mães. Cheguei a ter minha saída prevista após o período de estabilidade. Mas uma pessoa acreditou no meu trabalho. A gerente da filial, que havia sido uma das minhas grandes referências, decidiu me dar um novo desafio: liderar um setor. Aquela oportunidade mudou o rumo da minha história profissional. Construímos, juntas, cinco anos de muito sucesso e, para mim, ficou uma certeza: ser mãe não limita a entrega e a performance de nenhuma mulher.
Ao longo desses anos, também precisei enfrentar momentos pessoais muito difíceis. Houve uma fase em que perdi tudo. Foi através do meu trabalho, da minha dedicação diária e do olhar sensível da empresa para o meu comprometimento que consegui reconstruir minha vida e proporcionar um novo lar aos meus filhos. Essa foi uma das conquistas que mais me emocionaram. Mais do que reconstruir uma casa, eu estava reconstruindo uma parte da minha história.
Talvez por isso eu nunca tenha enxergado os desafios como motivo para desistir. O transporte rodoviário de cargas é dinâmico, complexo e feito de pessoas muito diferentes entre si. Para mim, liderar não significa apenas administrar processos. É saber ouvir, compreender diferentes realidades e ajudar as pessoas a reconhecerem o próprio valor.

É isso que mais me alegra no meu trabalho. Todos os dias tenho a oportunidade de me conectar com pessoas diferentes, conhecer histórias, trocar experiências e, de alguma forma, contribuir para suas trajetórias.
Também me orgulho da mulher que construí ao longo dos anos: uma mulher guiada pelo caráter, pela ética e por um olhar atento e humano para o outro. Tenho orgulho de ter desenvolvido a visão estratégica necessárias para conduzir desde situações simples até temas mais densos e complexos, sem perder a empatia e a capacidade de me conectar verdadeiramente com as pessoas.
E acredito que esse olhar também precisa estar presente quando falamos sobre mulheres no transporte. Competência técnica não tem gênero. Não estamos em busca de tratamento privilegiado. Estamos falando de equidade de oportunidades. Quero que as mulheres possam ter espaço para mostrar aquilo que sabem fazer.
Para quem está chegando ao setor, meu conselho é simples: estude o negócio. Conheça a operação, entenda como a empresa funciona, construa uma rede de apoio e valorize os relacionamentos, porque eles são fundamentais para o desenvolvimento profissional.
Hoje, um dos meus grandes sonhos profissionais é implementar e consolidar um programa estruturado de acolhimento psicossocial na empresa. Lidamos diariamente com profissionais que enfrentam situações silenciosas de vulnerabilidade e abuso e que, muitas vezes, não procuram ajuda por vergonha ou falta de informação.

Quero contribuir para a construção de um ambiente seguro, onde as pessoas possam encontrar apoio emocional e informação para atravessar esses momentos. Porque acredito que mentes sadias são a base para pessoas realizadas e profissionais preparados para qualquer desafio.
Na minha vida pessoal, meu maior sonho é ver meus filhos trilhando seus próprios caminhos com sucesso, ética e felicidade. Quando olho para tudo o que vivi, percebo que minha trajetória foi construída por muitas pessoas, oportunidades, desafios e recomeços. E sigo acreditando que ainda há muito para construir. Sempre é tempo de recomeçar e fazer diferente.
Marina Fior é Gerente de RH da Ativa Logística.




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