Léo Faruki: “Sempre encarei a vida da melhor forma possível”


Léo Faruki - Arquivo pessoal


Quando nasci fui registrado como Letícia. Faz pouco tempo, estou me redescobrindo como Léo. Eu tenho 35 anos, e esse era um sonho que eu tinha desde a adolescência. Há pouco, iniciei minha transição de gênero. Procurei médicos especializados e fiz tratamento hormonal. Com 90% dos meus documentos atualizados, meu nome agora é Léo Faruki.


Me descobri homossexual com 15 anos de idade. Sentei com meus pais e me abri com eles a respeito. Para os nossos pais esta aceitação é muito difícil. Sofri um pouco, principalmente, com relação a minha mãe, mas com o tempo isso foi mudando e meus pais passaram a me apoiar.


Quando criança, eu tinha o sonho dirigir veículos grandes. Mas essa não foi a minha primeira escolha. Eu vim da área da saúde. Não estava feliz como auxiliar de enfermagem e resolvi mudar. Então pesquisei por alguma coisa que eu queria fazer e fui em frente; mudei a categoria da CNH e fui buscar capacitação.


Hoje eu possuo a categoria D, posso dirigir de Van até caminhão truck, e eu quero me capacitar mais. Atualmente, trabalho com caminhão toco, mas já dirigi todos os modelos que a minha categoria permite. Minha meta é dirigir carreta.


Quando migrei para o setor do transporte não foi fácil, não apenas por ser mulher na época, mas também pela falta de experiência em si. Faltam oportunidades para quem está começando.




Fui para o Rio de Janeiro sem ter ninguém e sem ter nada. Lá ingressei no transporte de passageiros, primeiro assumi a direção de um micro-ônibus e depois ônibus. Com um ano de experiência, voltei para São Paulo e consegui uma colocação em uma empresa de transporte de cargas.


Depois vim para a TSA Cargo, onde fui muito bem acolhido. Aqui nunca fui desrespeitado, pelo contrário fiz muitas amizades. Tenho uma honra muito grande de trabalhar nesta empresa.


Na TSA conheci um amigo que começou a fazer o tratamento de transição para se transformar em um homem trans, e isso, me motivou também. No início, ainda relutei a fazer o tratamento pela minha idade, mas enfim resolvi fazer.


Eu sei que não é fácil para quem está acostumado a me chamar de Leticia, me chamar de Léo. É difícil mudar e usar o termo; se referir a mim como ‘ele’, no masculino. Mas a aceitação está sendo 100% e a transição é um sonho que estou realizando.


A vida particular não interfere se a pessoa sabe ser profissional. A minha visão de uma empresa inclusiva é aquela que não olha se a pessoa é gay, se é mulher, se é religiosa ou se é negra. Ela avalia se a pessoa sabe trabalhar bem e se tem competência para devolver o que lhe foi proposto.


Eu não consigo achar bacana um sistema de cotas, por que aí vira uma imposição, mas sou a favor do profissional ser avaliado por sua capacidade.


Mas o preconceito ainda é grande. Isso também em relação às oportunidades para mulheres. No TRC, falta muita estrutura, como por exemplo, já passei por vários pontos de paradas que não tinha banheiro feminino na época.

Contudo, nunca me senti intimidado. A partir do momento que trato todos com respeito eu devo ser respeitado, tem que ser uma via de mão dupla.


Hoje posso dizer que me considero realizado profissionalmente, faço o que eu gosto. E não penso em desistir, ao contrário, ainda tenho outros objetivos na área para conquistar. Sempre encarei a vida da melhor forma possível.

A mensagem que eu gostaria de deixar para todos os participantes do Vez e Voz, é que se temos um sonho, um objetivo, é possível sim alcançá-lo, basta ter foco e determinação. Acredite!


* Por Leo Faruki - Motorista na TSA Cargo

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