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Leandra Tassi: “Este espaço também é nosso e a gente dá conta”

Sou filha de motorista de caminhão e neta de transportador. Meu avô materno tinha duas transportadoras em Minas Gerais e meu pai foi ser agregado na empresa dele. Acabou conhecendo a minha mãe e, se casando com ela.

Meu avô serviu como exemplo para que meu pai, em sociedade com o irmão dele, montasse sua própria transportadora. Mais tarde, eles tiveram filhos (homens), que sucessivamente assumiram o negócio.


Não é novidade para ninguém, que anos atrás, só os homens trabalhavam em empresas de transporte.

Quanto a mim, fui para o mercado de trabalho. Por mais de 25 anos atuei no setor de seguros. Faz somente 2 anos que eu vim para o transporte, justamente, porque por aqui as coisas estão mudando.

Quando fui convidada pelo meu pai para trabalhar na transportadora, isso após a saída do meu irmão, eu não tinha ideia do quanto eu almejava aquilo.

Na verdade, acho que a gente na condição de mulher acaba meio que se auto protegendo. Cria na cabeça a ideia de que lá não tem mulher, então eu também não quero.

Mas eu sempre quis muito. Porque eu vivi a minha vida inteira ouvindo sobre transporte, nos almoços, cafés da manhã, em viagens... É algo que você percebe que corre na sua veia.

Se eu gostaria de ter ido para o transporte antes? Sim, eu gostaria. Mas eu vim no momento certo. Eu cheguei aqui com mais maturidade e com a humildade de querer aprender.

Preciso pontuar, antes de mais nada, que tenho uma admiração enorme pelo meu pai e todo o trabalho dele e a forma como ele fez crescer essa transportadora.

Hoje, sou a primeira diretora mulher da Tassi Transportes e cuido do departamento de pessoas e do administrativo. Cheguei aqui com uma visão de que é preciso valorizar os profissionais, desenvolver pessoas, melhorar a comunicação e o ambiente de trabalho.

Desde então, tem sido um grande desafio para mim. Eu procuro fazer o melhor possível. Mas não faço questão de esconder minhas limitações. Se não sei, eu admito e deixo claro que estou disposta a aprender. Na maioria das vezes, percebo que sou acolhida, porém tem vezes, que usam disso contra mim.

Já vivi situações no cago de diretora em que fui extremamente questionada, ao passo que o diretor que me acompanhava, não sofreu nenhum questionamento.

A mulher tem muito disso, de ter que provar que ela é competente, que dá conta do trabalho, da casa e dos filhos, porque ela é muito cobrada como profissional, esposa e mãe.

Vão te perguntar ‘se você for viajar pela empresa, como vai ficar o seu marido? E seus filhos?’ Ninguém pergunta essas coisas para os homens.

E isso, não é só uma cobrança por parte dos homens, mas das mulheres também.

Outro exemplo: a gente carrega o peso da juventude eterna. De parecer bonita e jovem mesmo com o passar dos anos. Essa preocupação para homens é rara.

E não é só isso. Dentro do mundo corporativo, se você vai contratar uma mulher, o que mais se analisa no processo seletivo é se ela vai querer engravidar, por causa da licença.

Ou seja, a mulher gera a vida, e às vezes, é penalizada por essa razão. Imaginou se todas as mulheres parassem de querer ter filhos? O que seria da humanidade?

Estamos chegando num momento corporativo em que estaremos no mesmo patamar do homem, mas para isso as mulheres têm que parar de criticar umas às outras e se apoiarem, porque aí ficaremos mais fortes.

Muitos homens também já dão este apoio. Eu tenho um marido maravilhoso, que me apoia na minha profissão. Uma vez ou outra, ele abre mão do trabalho dele, para me ajudar. E não posso esquecer dos meus três filhos; Eduardo, Paula e Marina — que têm muito orgulho que eu trabalhe.

Costumo dizer que todo ambiente precisa ter homens e mulheres porque só assim há um equilíbrio. Não acredito em ambientes extremamente masculinos e nem femininos. Eu acredito que no homogêneo é onde está a leveza.

Hoje meu grande sonho como profissional é ver o motorista em uma condição de trabalho mais humanizada. Quando você olha para a estrada você vê uma estrutura muito precária.

Tem uma foto do meu pai que é muito forte para mim, retrata ele dormindo dentro de uns tubos que ele transportava para Bahia. Ele dormia lá dentro porque era mais fresco.

Eu também viajo muito, e como mulher sei que não é em qualquer posto que eu consigo parar e usar o banheiro.

Só que de carro eu posso parar em qualquer lugar, mas os motoristas, em geral, têm lugares específicos, nos quais eles podem parar por conta de gerenciamento de risco ou nos postos que aceitam recebê-los.

Um cliente me pediu a contratação de uma motorista trans. E me veio a preocupação: a gente não tem estrutura nem para o homem, como vou dar estrutura para a pessoa trans. Eu não posso colocá-la em situação de vulnerabilidade, mas também não quero deixar de garantir oportunidades.

Já aconteceu de os motoristas irem até alguns clientes, e não serem autorizados a usar o banheiro. Eu me pergunto, como se nega um banheiro para um profissional?

A gente precisa fomentar a valorização desta profissão. Hoje em dia, dificilmente você vê um pai que é motorista de caminhão, incentivando o filho a seguir o mesmo caminho.

Eu escuto há 30 anos, que haverá apagão da função de motorista. E, sabe, eu vejo pouca mobilização contra essa possível falta de profissionais.

Pensando nisso, nós da Tassi Transportes nos aproximamos do SEST SENAT para tomar alguma atitude. Estamos com o Programa Rota para o Futuro, para levar às escolas a valorização desta profissão.

Quando você vai em busca de um projeto, outros vão aparecendo. Vieram o Vez & Voz, o A Voz Delas e o Rota Feminina. Ao conversar com todos esses, a gente percebe que está em um mesmo propósito, isso vai juntando forças e deixando os projetos mais completos.

Desejamos atrair mulheres para o transporte e mostrar que este espaço também é nosso e a gente dá conta. Ainda estamos procurando os nossos caminhos, mas a direção a seguir é clara, é uma apoiando a outra.

Não podemos nos acanhar, juntas a gente consegue chegar em qualquer lugar.

Leandra Tassi – Diretora Administrativa e de Pessoas na Tassi Transportes

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