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Margareth Ferreira: “Tinha tudo para desistir, eu era uma improvável”

Tenho 21 anos de experiência no transporte. Comecei a trabalhar numa transportadora aos 17 anos, no atendimento telefônico.

Acervo pessoal

Fiquei nessa empresa por dois anos até engravidar da minha primeira filha. Lembro que trabalhei até uma sexta-feira. Sábado eu passei mal e no domingo a minha filha nasceu. Voltei a trabalhar lá por mais uns seis meses, após a licença e saí para outra transportadora.

Aos 23 anos, engravidei da minha segunda filha. E nesta segunda gravidez pensei: ‘eu quero ficar um tempo em casa antes de dar à luz’. Foi uma decisão ruim. Meu parto foi mais complicado do que imaginei e acabou que fiquei sete longos anos fora do mercado de trabalho.

Claro que outras coisas contribuíram para isso naquele momento.



Minha ex-sogra, que na época tomava conta da minha primeira filha, se mudou para outro estado e ficou difícil conseguir uma pessoa que pudesse cuidar da bebê e da mais velha.

Meu marido também não era a favor do meu retorno para o trabalho. Só aos 30 anos é que reuni uma força mais intensa para tentar uma recolocação. Comecei a enviar currículos e consegui ser contratada pela Efitrans, onde estou já há 18 anos.

Sabe, eu considero fundamental a presença da mãe com os filhos, mas o tempo de qualidade tem pouco a ver com horários. Às vezes, você passa o dia inteiro com seu filho, porém sem uma interação com ele de fato.

Assisti a minha evolução junto com o crescimento da Efitrans. Também comecei lá na área de atendimento telefônico, depois fui para a recepção de arquivo, emissão de conhecimento e, mais tarde, alocada no setor de contas a pagar e a receber.

A empresa trouxe um despertar em mim como mulher. Porque, até então, eu era bastante submissa. Lá eu cresci com novas oportunidades. Fui passando por vários setores até assumir a área da gestão administrativa, com foco na qualidade de processos e treinamentos.

Porém, essa evolução não foi fácil. Eu era muito imatura emocionalmente. Tinha técnica, só que nem tanta habilidade comportamental. Tudo isso eu fui desenvolvendo com o estudo e a prática dentro do setor.

Quando iniciei como gestora da qualidade, um homem que na época trabalhava aqui falou para mim: ‘não pense que você vai conseguir porque não é tão fácil, assim como você imagina’. Foi muito marcante. Aí eu fiquei pensando, ‘se fosse outro homem assumindo aqui, ele falaria isso? Será?’

A gente nunca sabe o que o outro pensou. Mas uma coisa é certa, o que ele falou só diz respeito a ele, e não a mim.

No decorrer desses 18 anos, eu tive alguns problemas pessoais, que me desestabilizaram. Eu vivi dois relacionamentos abusivos que me impediam de crescer. E o meu medo era disso me afetar como profissional.

Então, antes de alguém me mandar embora, eu pedi para sair. Achei que não daria conta do recado, apesar de estar entregando resultados satisfatórios.

Isso aconteceu na primeira vez que eu me divorciei. Caí em depressão na época. Falei para minha liderança me desligar da empresa. Mas graças a Deus, eu tive alguém aqui dentro que me viu através de mim.

Um diretor daqui me disse assim: ‘você vai conseguir, você é competente, capaz, está fazendo um bom trabalho e isso tudo vai passar’. Esse apoio e incentivo foi um divisor de águas para que eu entendesse que aqui é o meu lugar.

Acervo pessoal
Venci a dor da rejeição ao me descobrir. O segredo está na busca do conhecimento e no aprendizado. O conhecimento é libertador. Eu descobri que eu tenho muito valor.

Consegui me fortalecer e me ressignificar e realizar meus sonhos na área profissional. Me desvinculei daquilo que fazia mal e fui me dedicar a minha carreira.

Quando aconteceu de novo — eu precisei terminar outro relacionamento; minhas férias estavam até programadas, mas eu adiei porque eu sabia o quanto precisava trabalhar para aliviar minha mente e coração. 

Lidei com a situação de maneira diferente, porque eu amadureci, cresci e comecei realmente a me amar.

Sou grata a toda a diretoria da Efitrans que me acolheu. Hoje eu não me vejo trabalhando em outra área que não seja logística. Exercer aqui dentro um cargo de liderança é tocar no coração das pessoas e influenciá-las a executar o trabalho, não só tecnicamente, mas com amor.

O que me deixa satisfeita é fazer com que toda a nossa equipe entenda que quem comprou algo, aguarda ansiosamente por aquilo. E espera-se da transportadora a habilidade necessária para que essa mercadoria chegue em perfeito estado e dentro do prazo combinado.

Embora eu adore trabalhar com pessoas, esse é o maior desafio também, porque cada um é diferente. Por isso, alinhar as ideias, engajar a equipe e fazê-los praticar a empatia e entender a necessidade do outro, é bem difícil.

Eu gostaria que todos tivessem a mesma paixão que eu tenho de trabalhar. Digo isso, sem hipocrisia nenhuma, porque eu sei que nem sempre a gente faz o que ama. Só que o comprometimento vale muito mais do que a motivação.

Muitas vezes a gente fica na área do vitimismo, que não leva ninguém a nada. Eu tinha tudo para desistir, era uma improvável. Saí de dois relacionamentos tóxicos, que me impediam o tempo todo de crescer. Nunca me bateram, mas me podavam muito. Eu vivia em função do que o outro queria que eu fosse.

Apesar das minhas experiências ruins, que fique claro que eu sei que dá para você conciliar um matrimônio muito bem-sucedido e uma carreira de sucesso. Tem pessoas com relacionamentos saudáveis, onde o outro te acrescenta, te ajuda a conquistar, te dá apoio.

Eu não enxergo o que aconteceu na minha vida como uma derrota, pelo contrário. Eu precisei passar por tudo isso para entender quem eu sou.

Quero compartilhar minha experiência com outras mulheres na área de transporte, para que elas não desistam. Às vezes a dificuldade vem e o caminho mais fácil é pedir para sair do trabalho, porém, este é o caminho menos recompensador.

Eu li no site do Vez & Voz histórias inspiradoras de mulheres no transporte, de muita superação, de quem estava por baixo, mas virou o jogo.

Gosto muito da palavra inspiração, ela reforça as nossas esperanças. Eu me inspiro em muitas mulheres aqui na empresa: na Juliana, na Amanda, na Carolina... mas além daqui, me inspiro, especialmente, na minha mãe.

Ela não teve uma vida fácil com meu pai, mas foi resiliente. Nunca trabalhou fora, foi criada para atender às necessidades do marido, mas sempre incentivou as filhas a buscarem o estudo e terem sua independência financeira.

Jamais vi minha mãe acordando triste. E às vezes ela estava passando uma dificuldade terrível com meu pai, de grande provação, mas na pequenez dela, ela resistia. Sempre levantava com um sorriso no rosto. E isso era o que fazia a gente continuar. É o que me motiva, até os dias de hoje.


Por Margareth Ferreira, gestora Administrativa e de Qualidade na Efitrans.


Siga a Margareth no Instagram e Linkedin: @magah.ferreira

 

 

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