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Sheila Ugolini: “Este movimento de exigir lugar de direito precisa ser coletivo”

Acervo pessoal

Meu início no transporte coincidiu com o começo da minha carreira. Me formei em Direito e, na época, minha intenção era continuar estudando para passar em concurso público. Só que eu não tinha condições de me dedicar integralmente a isso. Precisava de uma remuneração.

Uma colega que conheci na faculdade me convidou para fazer uma entrevista na Coopercarga. Ela já trabalhava lá. Eu não entendia nada de transporte e nem de cooperativa, mas demonstrei a garra que eu sempre tive de aprender.

Até hoje sou assim, se não sei algo, me dá logo um ‘siricutico’, tenho que ir atrás para entender.

Consegui ficar com a vaga. Entrei na empresa com foco no acompanhamento de processos. Agora, o meu trabalho é mais voltado para o planejamento estratégico.

O que gosto aqui na Coopercarga é que sempre existe algo que preciso aprimorar. Essa constância de estudo que a companhia me demanda me motiva de verdade.

Isso me tornou uma especialista em uma área na qual pouquíssimas pessoas dominam. Advogados que conhecem de transporte são raros, mais raros ainda aqueles que conhecem de cooperativa.

Ao longo da minha trajetória, auxiliei na transição da Coopercarga que de cooperativa passou a Sociedade Anônima. A empresa fez essa migração sem ter que judicializar nenhuma demanda. Atuei diretamente para que isso acontecesse.

Quando estava em um momento estável da minha carreira, decidi que era hora de eu ter um filho. Assim que engravidei, surgiu uma promoção para eu gerenciar a área. Até ali eu nunca havia ocupado um cargo de liderança.

Foi um ano em que tive muito medo, pela maternidade e pela nova responsabilidade, porque a gente não nasce preparado nem para gerir pessoas e nem para criar uma pessoa.

Errei muito. Em casa, porque ser mãe é ter que lidar com alguém que ainda não sabe expressar o que quer, e com a equipe também, até entender como tirar o melhor de cada um usando abordagens diferentes.

Ali entendi que não bastava entender de Direito. Mudei o foco dos meus estudos e me voltei para a gestão de liderança. Creio que estou no caminho certo como líder de equipe, agora quase não tenho rotatividade de pessoal.

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Em 2021, após terminar algumas outras formações, senti que a minha vida estava bem calma de novo, aí pensei: acho que vou ter mais um filho. E engravidei.

Dessa vez, minha gestação foi mais tranquila. Na minha segunda licença maternidade, me desliguei completamente das atividades na empresa, porque eu consegui ter maturidade da equipe. Mesmo comigo fora, tudo fluiu exatamente como precisava.

Nós mulheres, vivemos em um paradoxo constante. Se você é serena demais, é porque você não tem pulso. Se você é muito firme, é mal-amada. Se você grita, é porque é histérica. Se não grita, é porque não se posiciona. Se é casada, gasta muito tempo com a casa. Se estuda, não terá tempo para se dedicar à família. Se se arruma, é vaidosa. Se não se arruma, é relaxada. 

Há cobrança pelo que você faz e também pelo que não faz. Os rótulos só vêm para nós.

Para as mulheres, especificamente no ramo dos transportes, a gente tem que estar sempre provando que sabe. Em um ambiente em que há predominância masculina, nosso esforço para mostrar que somos capazes é redobrado.

Aí fico me perguntando, quando eles vão se mexer também?

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No dia 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, não basta ouvi-los dizer que as mulheres são fortes e guerreiras. Quero ouvi-los dizer que horas vão lavar uma louça, vão pôr a roupa na máquina e quando a janta fica pronta.

Os homens que coabitam na casa com uma mulher não estão dispensados das atividades domésticas. Eles precisam ser mais proativos e sair do discurso para ações práticas.

Quanto às empresas, essas devem prestigiar o conhecimento independente do gênero e compreender que as atividades do cotidiano não são segregadas.

Para finalizar, queria compartilhar que consegui alcançar um status de carreira que eu jamais imaginei. Ainda assim, gostaria de ser mais projetada nacionalmente pelo conhecimento jurídico que eu possuo.

Por isso, recomendo às mulheres que estudem para conquistarem seus espaços. A questão técnica com certeza se sobressaíra ao gênero.

Nos ajuda muito compartilharmos experiências de vidas. Coisas do tipo que estamos fazendo aqui agora. Isso faz com que outras mulheres, que têm a mesma dificuldade, também se enxerguem e pensem: olha, se ela está lá, por que eu também não poderia estar?

Essa força conjunta é o que fará a gente ganhar mais espaço. Esse movimento de exigir lugar de direito precisa ser coletivo. É Vez & Voz para todas.

Os homens estão incluídos neste processo, precisam fazer a parte deles, porque enquanto não fizerem, nunca será uma divisão justa. E nós estaremos aqui para lembrar disso.


Por Sheila Ugolini, gerente jurídica na Coopercarga.

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