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Tamara Pavelski: “Não é apenas o respeito que queremos”

Acervo pessoal

Venho de uma família em que as mulheres sempre foram muito independentes. Desde pequena sempre escutei da minha mãe:   — “estude, trabalhe, não dependa de ninguém!” Esse conselho importante sempre ecoou dentro de mim.

Minha mãe sempre trabalhou fora e cuidava de tudo em casa. Fez faculdade e pós-graduação com duas filhas pequenas, mesmo tendo uma carga diária de trabalho enorme. Ela sempre foi uma mulher empoderada e minha inspiração.

Aos 16 anos iniciei minha graduação, e a área escolhida foi minha paixão e primeira escolha desde sempre: a Psicologia. Assim iniciei minha trajetória de independência e luta pela conquista de meus objetivos, vendo no estudo o primeiro e fundamental pilar, o qual me acompanha constantemente.

Logo após minha formatura, ainda sem ter um cargo dentro da área, recebi a oportunidade de trabalhar na Transportes Cavalinho, onde iniciei como Assistente de Jornada, um setor bem diferente, mas que ao mesmo tempo me conectava com meus princípios, me levando a interagir e entender um pouco mais sobre os desafios dos motoristas nas estradas Brasil à fora.

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Embora esse cargo não fosse diretamente relacionado à minha área de formação, posso garantir que foi de suma importância na minha trajetória profissional, fui conhecendo o universo do transporte e entendendo a realidade daquele profissional tão importante que via no setor e em nós, um ponto de referência, apoio e segurança.

Passado um tempo, fui convidada a fazer parte do time de gestão de pessoas, onde assumi a função de Assistente de RH, com um desafio grandioso de estruturar os processos da área.

Após um ano e pouco deste novo desafio, recebi uma proposta para atuar em outra empresa, na área de saúde, como Psicóloga Organizacional, um desejo que eu tinha desde formada, e então tomei a difícil decisão de me desligar da Cavalinho, onde eu já estava há 3 anos. Foi uma experiência incrível, a qual me proporcionou muito desenvolvimento pessoal e profissional, no entanto, não me adaptei à cultura da empresa, sem falar que sentia saudade de toda conexão que eu tinha com os antigos colegas, algo que não encontrei no novo emprego.

Sempre mantive o contato com meus ex-colegas de trabalho e passados quatro meses, em uma conversa com meu ex-gestor ele me questionou se eu não gostaria de retornar para a empresa e, agora como Psicóloga Organizacional, à frente dos processos de recrutamento e seleção e remuneração.  Eu aceitei!


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Voltei com desafios ainda maiores, e junto com outras colegas, começamos a fazer alguns movimentos, principalmente em direção a diversidade e inclusão para a contratação de mais mulheres motoristas. Em maio de 2023 passamos a ser signatários do Movimento Vez e Voz, o qual abriu muitas portas para podermos tratarmos o tema “mulheres no TRC” dentro da empresa.

Porém, este movimento foi e está sendo, um processo um pouco difícil de emplacar. Há alguns anos a empresa não teve uma experiência positiva com a contratação de mulheres motoristas, e essa situação pontual virou uma barreira.

Além dessa situação, há vários outros motivos para as negativas, como por exemplo, as viagens muito longas, e elas não terem onde pernoitar, a falta de estrutura nas nossas unidades para recebê-las ou até mesmo por conta de um dos principais produtos que transportamos, as cargas químicas, que são produtos perigosos.

Embora todos esses fatos sejam consideráveis, não vejo nenhum deles como impeditivos para que não haja a contratação destas profissionais no cargo de motorista.  Assim como já se tinha justificativa para o não, eu sempre tive e tenho meus argumentos para dizer que sim, podemos contratá-las para a função.

Claro que só falar não adianta, a gente precisa de dados. Então, utilizei a pesquisa que participamos do SETCESP e mostrei para a liderança operacional em qual patamar estávamos no Índice de Equidade no Transporte.

Também temos a questão da experiência profissional, a qual foi bastante debatida, porque há um requisito, por exigência de clientes, de que o motorista tenha no mínimo três anos de experiência com carreta para que se possa contratá-lo. Como a Cavalinho hoje possui um centro de formação de motoristas, em conjunto com meu gestor, levantamos a possibilidade de criarmos um programa para capacitar mulheres.

Meu posicionamento é de que se não dermos oportunidade a elas, nunca terão a experiência e a empresa precisa ser uma formadora de profissionais. Levantei a possibilidade para que o desenvolvimento fosse realizado internamente, e assim fui persuadindo a liderança.
Acervo pessoal

Estes novos conceitos, são algo que a gente precisa ir trabalhando aos pouquinhos. Lembro-me da primeira reunião que tivemos para discutir o tema (contratação de motoristas mulheres), eu era a única mulher em meio líderes operacionais (homens) defendendo a causa. No começo houve resistência, custa pensar fora da caixa, sem falar que uma mudança de cultura não acontece de uma hora para a outra.

Hoje percebo que os gerentes das filiais estão atuando a favor da causa, tanto é que já temos duas mulheres motoristas. Poder contratá-las foi algo que me deixou muito realizada, porém ainda não atingimos nossa meta, que é a de contratar pelo menos uma motorista mulher em cada unidade.

Acredito que ao final de 2024, o cenário estará diferente. Estou confiante que será, e sem dúvidas, trabalharei incansavelmente para que isso se concretize.

Não é apenas o respeito que nós queremos. Ser respeitado é o mínimo exigido para qualquer relação. O que queremos é subir de nível. E para isso, precisamos nos unir e ocuparmos novos espaços. Independentemente da função, não é o fato de ser mulher que vai definir se eu tenho ou não capacidade para atuar em determinado contexto.

Juntas, somos uma força imparável, capaz de transformar sonhos em realidades tangíveis e criar um mundo mais inclusivo e equitativo para todas.

Por Tamara Pavelski, psicológa organizacional na Transportes Cavalinho.

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