Evelyn Perussetto: “A mulher pode ser o que ela quiser. Se ela quiser pode ganhar o mundo”


Com 14 anos eu entrei no Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) para cursar mecânica de ajustagem automobilística. Dois anos depois, iniciei um estágio na área de produção na empresa onde trabalho há 25 anos, a Mercedes Benz Brasil (MBB).


Na MBB comecei o trabalho na linha de montagem, e posteriormente, fui para o setor de qualidade e inspeção. Em 2016, ingressei na área de auditoria de caminhões focada na parte de testes e é o que eu faço atualmente. Para detalhar melhor, meu trabalho envolve fazer os testes práticos no veículo, antes que ele seja liberado para o cliente.


Eu comecei muito jovem, e não cheguei a me imaginar fazendo outra coisa. Aos 14 anos, já estava na indústria, e como costumo dizer, cresci lá dentro. A primeira peça que eu fiz no Senai foi um caminhão de aço, eu tenho ele até hoje, desde sempre me vi ligada a este meio.


Um dos desafios nisso tudo é por ‘alguns poucos’ me enxergarem como uma mão de obra feminina fazendo um trabalho masculino. É óbvio que, em termos de força física bruta nós mulheres temos uma defasagem, em contrapartida, quando falamos de atenção ao detalhe, a mulher é muito mais minuciosa e nesse ponto temos mais vantagens.


Eu acredito que, quando se junta um homem e uma mulher para desenvolverem uma atividade, você tem um ganho, na parte física e também na delicadeza do olhar atento. Às vezes, até meu chefe fala ‘como você viu este detalhe’? Nós mulheres temos vantagens neste ponto, então quando você tem uma diversidade nas equipes você tem um ganho. Só que mesmo assim, muitas organizações são resistentes em ter mulheres como funcionárias em determinados setores.




A gente ainda se vê obrigada a provar que não somos apenas um rostinho bonito para algumas pessoas, mas que temos capacidade para fazer absolutamente tudo. Alguns pensam que a mulher não foi feita para isso, ou não para aquilo, e acham que podem determinar o que a gente pode ou não fazer.


Foi até por esse motivo que pensei em desistir algumas vezes: os julgamentos contrários. Passei uma vez por uma situação em que um senhor mais idoso olhou para mim e disse, ‘se fosse minha filha estava pilotando o fogão’ e eu respondi de bate e pronto, ‘estou aqui porque tenho mais competência’. Ele nunca mais fez esse tipo de brincadeira comigo. É uma resistência que faz a gente até pensar ‘será que eu quero isso para mim?’


A prova que mãos delicadas podem dirigir os brutos

Só que aí o tempo foi passando e eu fui me adaptando. Hoje, quando eu saio com o caminhão pela estrada, as pessoas me cumprimentam e veem de forma positiva, as coisas são bem diferentes daquela época. Isso me deixa extremamente realizada profissionalmente, principalmente porque eu comecei de baixo.


Acho que, até por ter crescido em um meio com muitos homens, aprendi a falar no mesmo tom que eles. Muito jovem aprendi a me impor, porque quanto mais baixasse a cabeça iria ficar pior. Claro que, com muito respeito sempre. Até por isso, aprendi a conversar sobre tudo, de futebol a mecânica. Esses assuntos foram até estratégias que usei para quebrar barreiras.


Meu maior desejo é encerrar minha carreira de cabeça erguida sabendo que a minha história serviu de exemplo para outras mulheres. Para a minha família, fazer o que eu faço é um orgulho, e por isso sinto uma enorme alegria.


Acho importante nós mulheres sairmos da toca e conquistarmos mais daquilo que nos é imposto. A mulher pode ser o que ela quiser, ela tem todo o direito, se ela quiser ganhar o mundo, ela pode. É muito importante que isso seja dito e explícito.


Que nós possamos ganhar o nosso espaço de forma justa e, acima de tudo, ser feliz com as nossas decisões. Mostrar ao que viemos, e se estamos onde estamos, é porque também temos competência.


Ainda assim, eu sei que temos muita coisa para mudar, mas a gente vem quebrando esses paradigmas. Acredito que já temos enfrentado muitas batalhas, iniciativas como projetos A Voz Delas e Vez & Voz, já são algumas lutas que travamos e as mudanças virão. É um trabalho que ficará de herança para as futuras gerações. Não só a porcentagem de mulheres que trabalham no setor tem que aumentar como também o salário ser equiparado.


Como uma última mensagem, eu gostaria de falar que às vezes, quem nos impõem limitações, somos nós mesmas. Juntas hoje, a gente pode fazer com que o futuro seja diferente e a presença de mulheres no TRC seja muito mais natural do que aquilo que foi para nós.



*Por Evelyn Credendio dos Santos Perussetto – Analista de Qualidade Mercedes-Benz

Siga a Evelyn no Instagram @evelyncredendioperussetto

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